Como a alta direção sustenta a cultura de integridade
A cultura de integridade começa pelas decisões de quem lidera a organização. Entenda as responsabilidades da alta direção, a importância do exemplo e os riscos da omissão.
Introdução
Há algum tempo, no Brasil, o compliance era associado principalmente às empresas multinacionais e aos setores fortemente regulados, como o financeiro.
Com o avanço das exigências legais, normativas e sociais relacionadas à ética empresarial, o tema passou a ocupar um espaço mais relevante nas organizações de diferentes portes e segmentos.
Nesse contexto, a integridade deixou de ser compreendida apenas como o cumprimento de regras e passou a representar uma forma de conduzir os negócios com transparência, responsabilidade e coerência.
A palavra compliance deriva do verbo inglês comply, que significa estar de acordo ou agir em conformidade. No ambiente organizacional, o conceito envolve o cumprimento das legislações aplicáveis, das normas, das políticas internas e dos compromissos assumidos pela empresa. Entretanto, a conformidade não depende apenas da existência de documentos e procedimentos. Ela também exige comportamentos éticos, decisões responsáveis e transparência no exercício das atividades profissionais.
O programa de compliance é um dos instrumentos utilizados pela alta direção para transformar compromissos éticos em práticas, controles e responsabilidades. Sua efetividade, porém, depende da forma como os dirigentes conduzem a organização e demonstram, por meio de suas decisões, que a integridade é um valor indispensável para a gestão.
O que é a alta direção?
De acordo com a NBR ISO 9000:2015, a alta direção corresponde à pessoa ou ao grupo de pessoas que dirige e controla uma organização no nível mais elevado. Essa posição envolve autoridade para tomar decisões, delegar responsabilidades e disponibilizar os recursos necessários ao funcionamento da organização. Por essa razão, a alta direção exerce influência direta sobre as prioridades, os comportamentos e a cultura estabelecida no ambiente de trabalho.
Mais do que ocupar uma posição hierárquica, os integrantes da alta direção precisam compreender suas responsabilidades e participar ativamente dos processos de gestão.
O envolvimento da liderança contribui para que políticas, objetivos e controles sejam efetivamente incorporados às atividades da empresa, em vez de permanecerem restritos a documentos formais.
Responsabilidade da alta direção
Entre suas responsabilidades está o estabelecimento de diretrizes compatíveis com o contexto e com a estratégia da organização.
A alta direção também deve supervisionar riscos, garantir a disponibilidade de recursos, definir responsabilidades, acompanhar resultados e assegurar que os requisitos dos sistemas de gestão sejam integrados aos processos do negócio.
No contexto de um sistema de gestão da qualidade, por exemplo, cabe à liderança prestar contas por sua eficácia, estabelecer a política e os objetivos da qualidade, assegurar os recursos necessários e promover a abordagem de processos e a mentalidade de riscos. Também é sua responsabilidade comunicar a importância de uma gestão eficaz e garantir que as autoridades e atribuições pertinentes sejam definidas, compreendidas e aplicadas em toda a organização.
Essas responsabilidades não devem ser interpretadas apenas como exigências documentais. Ao estabelecer objetivos que não são acompanhados, ignorar riscos conhecidos ou deixar de disponibilizar recursos adequados, a própria liderança enfraquece os sistemas de controle e transmite a percepção de que as políticas internas não precisam ser cumpridas.
Liderança pelo exemplo
A sustentação de uma cultura de integridade depende, sobretudo, da liderança pelo exemplo.
A conduta da alta direção influencia a maneira como colaboradores e gestores compreendem os valores organizacionais. Quando os dirigentes agem com transparência, respeitam os procedimentos, tratam as pessoas de maneira igualitária e respondem adequadamente aos desvios, demonstram que os compromissos éticos devem ser observados por todos.
Por outro lado, quando a liderança tolera exceções, favorecimentos ou comportamentos incompatíveis com as políticas da organização, cria-se uma diferença entre o discurso institucional e a prática cotidiana. Nessas situações, códigos de ética, treinamentos e controles perdem credibilidade, pois os colaboradores percebem que as regras podem ser aplicadas de forma seletiva.
Liderar pelo exemplo também significa reconhecer erros, prestar contas das decisões e agir com coerência diante de situações que envolvam conflitos de interesses ou possíveis irregularidades. A integridade se fortalece quando as mesmas regras são aplicadas independentemente do cargo ocupado ou da importância comercial de uma pessoa para a organização.
Consequências da omissão
A omissão da alta direção pode gerar consequências significativas.
A ausência de supervisão favorece falhas de controle, aumenta a exposição a riscos e pode contribuir para a ocorrência de fraudes, corrupção, assédio e outras violações éticas. Além das possíveis perdas financeiras, essas situações podem provocar danos à reputação e comprometer a confiança de colaboradores, clientes, fornecedores e parceiros.
Quando irregularidades são conhecidas, mas não recebem tratamento adequado, a organização também pode desenvolver um ambiente de tolerância a comportamentos indevidos. A falta de resposta transmite a mensagem de que determinadas condutas são aceitas ou de que os mecanismos de integridade existem apenas formalmente.
A omissão ainda pode resultar no enfraquecimento dos sistemas de gestão e na responsabilização da própria organização e de seus administradores, conforme a natureza e a gravidade dos fatos. Por isso, a alta direção deve atuar preventivamente, acompanhar os principais riscos e assegurar que denúncias, desvios e não conformidades sejam tratados de maneira independente, imparcial e proporcional.
Sustentar uma cultura de integridade exige uma atuação contínua e coerente da alta direção. Não basta aprovar políticas, códigos ou programas. É necessário demonstrar compromisso por meio das decisões, da disponibilização de recursos, da supervisão dos riscos e da responsabilização diante de condutas inadequadas.
Quando a liderança participa ativamente, estabelece responsabilidades claras e atua de acordo com os valores que comunica, a integridade passa a fazer parte da rotina organizacional. Dessa forma, o compromisso ético deixa de ser apenas uma declaração institucional e se transforma em um princípio efetivamente aplicado na gestão e nas relações da organização.
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